sábado, 11 de novembro de 2017



Que sabes tu do amor?


Não me venhas dizer que amas, se feres,
se sentes que possuis a coisa amada
se a pensas para sempre apaixonada
se crês na permanência do que queres.
Querer para sempre é coisa ausente
como ausente é ser, ser imortal.
Não queiras transformar a natureza
não queiras retirar toda a riqueza
ao que na vida é coisa universal.
Remove de ti toda a cegueira
sê feliz em bem-querer, por querer bem,
sê um livro aberto, uma bandeira
sem autor, país ou “ mais além”.
Rasgas os teus véus, se luz pre-sentes
em sorrisos devolvidos de alegria.
Ergue encontros sábios a cada dia
sê livre de quereres e não quereres.

Ama apenas porque amar é estar presente
ama apenas porque de amar és capaz.

Este amor maior que desconheces
livre de muros, de esperanças, de objectos
não morre nem renasce, não decai nem se desfaz

vive a teu lado, és tu, sempre o serás!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017



Bilhetes de amor

Mais logo, regressarei
de mansinho,
trazendo o que de ti levo
no coração
e que contigo fica:

O nosso amor.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017



Eu e o Tempo

Se eu fosse o Tempo
deixava no passado o que passou
e no futuro o que lhe pertence.
Ficava apenas com o presente
e assim podia ver a flor na flor,
o riacho no riacho,
o sorriso de quem passa,
ou a sua dor.
Podia ouvir a voz do vento
e brilhar o brilho de tudo o que é
no momento presente.

Se eu fosse o Tempo
deixava no passado o que passou
e no futuro o que lhe pertence.
Ficava apenas com o presente
e o embrulhava com fitas coloridas
com que presenteava tudo o que é,
e assim viveria na não ausência
e no tudo haver,
na frescura e na beleza do momento,
o único que há para viver.

Se eu fosse o Tempo
deixava no passado o que passou
e no futuro o que lhe pertence.
Ficava apenas com o presente
e assim podia ver com os olhos,
ouvir com os ouvidos,
sentir com o coração
e depois, num belo jogo de crianças
misturá-los todos,
na pureza do não julgamento.






segunda-feira, 27 de março de 2017




Ruas sem saída


Caridade vivia no fundo da rua
lá onde ninguém ia,
rua vazia, rua vadia.
Rua perdida no meio do nada
de morte abraçada.
Rua estilhaçada.

Numa noite de inferno, 
cinzenta e molhada
chega à tal viela,
entra p’la janela,
o vento Suão, 
anunciando o  verão.

Caridade sorriu, 
medrou e saiu para o abraçar.
Ele assim o fez:
Afagou-lhe a tez,
soprou-lhe ao ouvido
belas esperanças
sonhos e mudanças,
no fundo da rua.

Recetiva e nua
deixa Caridade
Suão embalar
seu corpo ondulante.
Bailando flutua,
sorri para a lua
parte p’ra voltar.

Suão carinhoso
terno e dengoso
traz-lhe o que é preciso,
para alegre a ver!
Um amor assim
caridade em mim,
o que for em vós,
cheiro de alecrim
flor de jasmim
é pátria dos sós.

E ao fundo, a rua,
lá onde ninguém ia,
não mais foi vazia.
Escolheu ser vadia
e no meio do nada
tudo ser um dia.

2014.01.06


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017


Primaveras Vazias

O canto das andorinhas-dos-beirais anuncia a primavera.
O homem ocupado, passa, alheio à vida preenchida de vazios. As andorinhas voam para os ninhos, há muito minuciosamente construídos, onde outrora nasceram e onde os novos petizes reclamam por alimento.
O homem ocupado indigna-se perante o lixo por baixo do ninho das andorinhas, mesmo à entrada da casa, que é sua, ignorando todas as primaveras. Irritado vai buscar uma vassoura e varre dali a vida e os seus ritmos, sábios. Satisfeito com este ato heróico, o homem, alheio à vida, toma o seu rumo, vazio.


As andorinhas voam confusas ao redor do lugar, agora sem vida. Ali permanecem em voos cruzados, certeiros e delicados, fazendo-se ouvir em cantos estridentes, doloridos. A primavera poética, cala-se, dando lugar ao mais gélido inverno.

domingo, 22 de janeiro de 2017



Na era dos Trump(iqueiros)

Retirem-se as vendas 
eliminem-se as cegueiras
vistam-se as vestes da coragem
alimentem-se as consciências de lucidez.
Derrubem-se as fronteiras
do medo, do ódio, da ignorância.
Cozinhem-se as diferenças
no caldeirão da aceitação e do respeito
Envolvam-se estes valores maiores 
em nuvens de altruísmo
Eduquem-se os petizes para o amor,
para a empatia

E nesta construção de Humanidade feita
como pode o incauto sobreviver à sua ilusão maior, 
que de diferenças se alimenta?


2017.01.21



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016



Não me falem de Natal


Não me falem de Natal
Enquanto Natal não houver, no coração dos homens.
Enquanto lágrimas de horror, de medo, de desespero, molharem faces.
Enquanto uma criança der à praia, morta.
Enquanto bombas estilhaçarem corpos, esperanças.
Enquanto se desventre a Terra, em ambições selvagens.
Enquanto se escureçam céus de nuvens sujas, poluindo vidas.
Enquanto a floresta nada mais for que um negócio, cego à condição humana.
Enquanto o medo e a fome prostrarem irmãos, senão de sangue,
de condição.
Enquanto houver gritos de revolta, agrilhoados.
Enquanto uma bala certeira derramar sangue, por ódio, vingança
e todo o tipo de ignorância.
Enquanto reinar a desigualdade entre homem e mulher,
entre indivíduos da raça humana (como se de diferentes raças de tratasse).
Enquanto o poder torne selvagem, quem o detém.
Enquanto se desdenhar o bem, como valor maior.
Enquanto chacinas houver, em nome da incessante procura do saber,
de crenças obscuras, do lucro sem fronteiras, sem limites.
Enquanto rios e mares sofrerem de exploração desmesurada,
ameaçando espécies.
Enquanto o homem, estúpido, ignorante, selvagem,
predador incansável, explorador sem limites, sorrir.

E se algum de vocês me falar de Natal, em prantos de profundo sofrimento,
talvez o meu olhar se vos dirija, na busca de um Natal, em vós.

Até lá, não me falem de Natal.