Na proeminência da falésia, o grito. Fim de linha.
De certa forma todos somos sonâmbulos. Se não o somos, diagnosticados, somo-lo embebidos numa massa espessa, que nos veste de ignorância. Sabemos tanto e tão pouco. Pobres sonâmbulos…
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Com
as palavras se constrói a vida, a morte e tudo o que nos propomos construir. Há
as que nos inspiram e as que nos secam, as ditas e as escritas, as que nunca
dizemos e nos arrependemos. Há as palavras que nascem em nós, perante desafios,
não pensadas mas sentidas.
Com
as palavras viajamos a mundos distantes, desconhecidos, inventados. Conhecemos
gentes, cidades, aldeias e toda a espécie de vidas, de tramas com que nos
identificamos ou rejeitamos.
Com
as palavras rasgamos a solidão, vivida, sentida, real ou imaginada.
Com
as palavras escondemos os silêncios e ludibriamos sentimentos, mostramos e
fingimos quem somos, o que queremos ou rejeitamos. As palavras quebram
barreiras ou edificam muros inultrapassáveis.
Com
as palavras se mata e se morre, de amor, de dor, de saudade, de angústia, de
tristeza e de tudo o mais de que somos feitos. Há as palavras ácidas, as doces,
as melodiosas e as diretas, com que nos enrolamos, deitamos, abrimos ou fechamos.
Com
as palavras simples nos comprometemos, para sempre, nos sins da vida. Com elas
se constrói o sal da existência, na poesia e todos os mundos do mundo, para
aquém e além dele: os mundos dos que as recitam, escrevem, inventam, cantam e
até daqueles que as pintam, desenham, esculpem, pois cada obra de arte contém,
e acorda em nós, palavras.
Com
as palavras nos perpetuamos e nos mostramos às gerações vindouras.
Compreendemos quem somos e donde viemos. Conhecemos as raízes que nos nutriram,
a terra de que somos feitos.
Com
as palavras construímos imagens, futuros, carreiras, e com elas as destruímos.
Com
as palavras, tudo e nada somos, mas sem elas, o inimaginável mundo de um total
silêncio se veria privado do seu outro lado e viveria, decerto, pela metade.
Com
as palavras todos os silêncios são possíveis pois cada uma delas possui em si o
silêncio respectivo.
Sem
as palavras todos seriamos mais pobres.
Vivam as palavras, todas elas, em
todas as línguas. E vivam também as meias-palavras naquilo que no indizível
nada deixam por dizer.
2013.05.15
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Espinhos
Pendurado por panos crus
preso por fios onde se enrola,
baloiça os seus pensamentos,
convicções, crenças.
Está rodeado de espinhos
com que vai picando os que por ali passam.
Há uma crueza em si,
proporcional à força.
O rosto tenso e sisudo
procura sorrisos,
amores.
A solidão habita para cá dos espinhos.
Para lá deles...a escuridão.
Aqui, onde se vê,
há o tamanho, imenso,
linguagem outra,
do inacessível,
do incompreendido
do encoberto.
Baloiça.
Esperneia.
Grita.
A cada reagir, maior a prisão
que lhe tira os pés do chão,
e o arrasta, espinhos acima,
para a dor de não saber,
como fazer
amaciar o coração,
acalmar esta tensão.
Olha-lá,
sem a julgar,
sem lhe exigir a lucidez.
Aceitar-lá,
deixar que seja quem é.
Pode a luz ser escuridão?
E ele?
Pode descer dos panos crus
e eliminar o caminho que a espinhos conduz?
Ou viverá nesta agonia,
tremenda e fria,
nesta visão
de porta aberta
à solidão?
2013.04.27
Pendurado por panos crus
preso por fios onde se enrola,
baloiça os seus pensamentos,
convicções, crenças.
Está rodeado de espinhos
com que vai picando os que por ali passam.
Há uma crueza em si,
proporcional à força.
O rosto tenso e sisudo
procura sorrisos,
amores.
A solidão habita para cá dos espinhos.
Para lá deles...a escuridão.
Aqui, onde se vê,
há o tamanho, imenso,
linguagem outra,
do inacessível,
do incompreendido
do encoberto.
Baloiça.
Esperneia.
Grita.
A cada reagir, maior a prisão
que lhe tira os pés do chão,
e o arrasta, espinhos acima,
para a dor de não saber,
como fazer
amaciar o coração,
acalmar esta tensão.
Olha-lá,
sem a julgar,
sem lhe exigir a lucidez.
Aceitar-lá,
deixar que seja quem é.
Pode a luz ser escuridão?
E ele?
Pode descer dos panos crus
e eliminar o caminho que a espinhos conduz?
Ou viverá nesta agonia,
tremenda e fria,
nesta visão
de porta aberta
à solidão?
2013.04.27
segunda-feira, 13 de maio de 2013
A mente que vivia à deriva
Esta mente vivia num corpo que
também não tinha descanso. Havia em particular uma perna que parecia um pequeno
arbusto ao vento: ora abanava da esquerda para a direita, ora se apoiava nos
dedos do pé levantando e baixando o calcanhar num movimento, por vezes tão rápido,
que provocava o balanço de mesas, cadeiras ou bancos, onde o corpo tocava.
Cansada, esgotada, essa mente
resolveu parar. Mas, quando o tentou, verificou não saber como isso se fazia.
Um belo dia de inverno, a mente
meteu o corpo ao caminho e foi dar um passeio à beira-mar. Sentou-se nas
rochas, olhando o mar. O dia estava cinzento mas ameno. As ondas revoltas, deixavam
no ar uma névoa repleta de gotículas de água que faziam com que tudo à volta
estivesse rodeado de um nevoeiro mágico. Aquele mar, feito de espuma branca, era
maravilhoso. Os sons vindos do movimento enrolado das ondas ecoavam na mente, não
lhe deixando lugar para mais nada. O corpo estava calmo, a mente estava calma,
o mundo de repente parou: tudo era mar, tudo era paz.
Subitamente a mente retornou ao
movimento, surpreendida e assustada pelo não
movimento. Que era aquilo?!!! Será que era verdade? Será que tinha mesmo
parado? Que paz era aquela que desconhecia?
Decidida a perceber o que tinha
acontecido volta-se de novo para a contemplação do mar. Atenta, resolve
processar tudo o que acontece, analisando, questionando, relatando o mais
fielmente possível a experiência de olhar o mar. Nada! Minutos passados, não
tinha conseguido mais que uma espécie de relatório mental daquele mar que,
indiferente a mentes e corpos, se fazia ser. O corpo agitou-se. Que diabo, onde
tinha ido parar a paz que há momentos conhecera?! Calma, disse para consigo, se
conseguiste uma vez há sempre oportunidade de o repetires…
Convicta daquela possibilidade, olhou
de novo o mar que lhe devolveu a imagem envolvente e grandiosa, espaçosa e
acolhedora, reveladora de uma sensação de pequenez e insignificância gratificantes,
e de uma força que a contagiava. A última coisa de que se lembra, antes da
imensa paz revisitada, é de uma sensação mental e física de total entrega. O
mar, as ondas e os seus movimentos, o céu, o corpo e a mente, tudo, e todos, se
entrelaçam numa pura claridade sem começo nem fim, sem passado ou futuro, sem
ser isto ou aquilo. Uma paz em total liberdade feita de uma profunda e imensa
alegria, é. Nada há a pensar, explicar ou compreender. Tudo se encaixa, tudo
está bem. É a totalidade, a sensibilidade, o amor transbordante, imenso como o
mar.
E a mente soube que parar não é deixar
de ver, ouvir, percepcionar. Parar é estar presente, é estar onde se está, é
embarcar no momento presente e vivê-lo na sua plenitude: vendo-o, ouvindo-o,
sentindo-o, recebendo-o, sem filtros que o deturpem, sem medos que o afastem, sem
preconceitos que o pseudo-alterem..
A mente finalmente compreende que
parar é viver em paz, que viver é movimento e que paz é saber parar em
movimento. O corpo obedece, tal como o barco que finalmente se vê resgatado
pelo marinheiro, da sua deriva.
Costa da Caparica, 2009
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Audaz fantasia
Olha a estrada desenhada
A cada passo que dás.
Em curvas e contracurvas
Pedras, areias, enganos
Trilhos, metas e planos
Se constrói o caminhar.
Olha bem por onde pisas
Sem deixar de passos dar.
Lucidez e dignidade
Coragem, sinceridade
Adubam o firme andar.
De honestidade pinta
A vereda do caminho
Se alguém te disser que sonhas
Que em fantasias mergulhas
Faz-te audaz no caminhar.
O resto é tropeçar.
05.01.2013
domingo, 14 de abril de 2013
A contra-dança
Da janela lá de casa
Vejo o Beija-flor pousar.
Bate as asas e balança
Numa expressiva dança
Que desperta o meu olhar.
A beleza do momento
Faz o meu mundo parar.
Tudo é o Beija-flor,
A dança chama-se Amor
Tudo se enlaça, a bailar.
Assim é a contra-dança,
De um Beija-flor a voar.
2011.12.12
Da janela lá de casa
Vejo o Beija-flor pousar.
Bate as asas e balança
Numa expressiva dança
Que desperta o meu olhar.
A beleza do momento
Faz o meu mundo parar.
Tudo é o Beija-flor,
A dança chama-se Amor
Tudo se enlaça, a bailar.
Assim é a contra-dança,
De um Beija-flor a voar.
2011.12.12
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