domingo, 22 de setembro de 2013

Eternamente Sagrados



Das cavernas mais profundas da natureza, a Deusa Terra estendia a suas raízes como serpentes entrelaçadas num covil profundo e recôndito.
Cada uma dessas raízes transportava em si seivas leitosas, espessas ou fluídas nutrientes vitais a cada um dos filhos e filhas que o seu ventre acolhia.
Do mais etéreo espaço, o Deus Sol abria os seus braços brilhantes e luzidios, em número incalculável, dos quais sopravam raios de uma energia quente e luminosa que penetravam e nutriam a Deusa Terra.
Da sagrada união de ambos, geravam-se todos os filhos e filhas cujos actos sagrados tinham feito dum pequeno ovo, suspenso no universo, o lugar capaz dos maiores milagres, só possíveis aos reinos dos Deuses. Todos os milagres eram de estrema beleza e pureza e cada um deles era sentido e vivido por todo o reino, pois não havia qualquer separação entre os filhos e filhas sagrados. Cada acção, cada pensamento, cada expressão, gerados no sistema da não existência individual, afectava tudo e todos, neste reino onde a liberdade era o motor de cada milagre.
Um dia, muito distante, um dos filhos adoeceu gravemente, de um mal contagioso, e conheceu o Medo, após ter recusado o milagre da cura. Abriu então uma ferida no ventre da Deusa Terra e conheceu o Poder. Abandonando o ventre materno, viu-se separado de toda a família divina e conheceu a Ambição.
Da ferida aberta no ventre da Deusa Terra outros filhos e filhas lhe seguiram os passos. Em pouco tempo, uma multidão de filhos e filhas esqueceram as suas origens sagradas dando lugar ao nascimento de feiticeiras e feiticeiros que se diziam sagrados e poderosos, capazes dos maiores feitos alquímicos. Munidos de máquinas pensantes, todas iguais, desenvolveram sistemas artificiais de existir com base em processos sofisticados que premiavam aqueles que mais se distanciavam do estado primordial da existência. Quanto mais profunda a sensação de separação, o estado de individualidade, maior o poder exercido e experimentado.
Estas seivas, não sagradas, que percorriam tais máquinas pensantes, iam intoxicando lentamente, em progressivos estados amnésicos, todos os seres. Entre eles, os mais jovens, retinham ainda vislumbres do estado vivido no ventre materno, vislumbres incompreendidos pelos mais velhos e por estes combatidos como se de algo nefasto e doentio se tratasse. De entre os filhos amnésicos, os mais dotados, logo encontravam soluções para a cura o que lhes trazia poder e posses. As próprias curas milagrosas iam-se anulando umas às outras, à medida que os males eram identificados. O mundo das máquinas pensantes, todas iguais, construiu assim uma enorme teia onde todos se sentiam presos e infelizes, enquanto a própria teia era embelezada como se do paraíso se tratasse. Muitas das curas ofendiam mais e mais o ventre materno e os braços do Rei Sol a quem os filhos viam como escravos e fontes de ambição e de poder.
A Deusa Terra e o Deus Sol conheciam bem o sofrimento dos filhos e as agressões que estes lhes infringiam. Sabiam bem as preocupações, os medos, as inquietações dos habitantes da teia maldita mas não cabe aos deuses, nem às fontes de vida, interferir directamente na liberdade dos seus filhos. A sorte de todos é por todos gerada e assim, os Deuses vigiavam a teia sofrendo e resistindo, mostrando as feridas onde inevitavelmente todos se feriam.
Tempo e tempos passaram, a beleza da Deusa Terra permanece viva mas as doenças tomaram também conta dela porque nunca houve realmente qualquer separação entre ela e seus filhos. Por vezes chora, inundando tudo com as suas lágrimas e tirando vidas. Por vezes, assolada por doenças nas vias respiratórias, em enormes acessos de tosse, abana o reino, destruindo as obras criadas pelas máquinas pensantes e tirando as vidas dos seus próprios filhos e filhas.
O Rei Sol também sofre pelos sofrimentos que causa. Os seus braços, outrora benéficos, são agora temidos por muitos e outros encontram neles a morte. As protecções antes existentes, deixavam que os raios luminosos abraçassem a Deusa Terra suavemente. Hoje, por acções não sagradas dos filhos amnésicos, tocam tudo e todos tão intensamente como é intenso o sofrimento que provocam em Deuses e filhos que ignoram serem sagrados. Adoecem-nos e matam-nos.
Dizem os visionários, os magos sagrados, que haverá filhos e filhas a descobrir o caminho de volta ao ventre sagrado, outros que montam cavalos escravos em direcção à descoberta de novos lugares suspensos no universo, na tentativa de encontrar uma fuga da teia maldita e um caminho para uma sensação de felicidade perdida e não vislumbrada.
Aqui onde te encontras, se conheces a felicidade duradoura talvez estejas já a habitar o ventre sagrado da Deusa Terra. Se em ti habita a mais ténue sensação de sofrimento então fecha os olhos e acorda. Deixa que o que resta de sagrado em ti atravesse o universo. Penetra esse campo divino, vê-te de volta aos braços do Rei Sol e ao ventre da Deusa Terra e saberás então quem és e onde pertences, em suma, conhecerás a felicidade nunca perdida mas ofuscada por máquinas pensantes, todas iguais.

1 comentário:

Filomena Raposo disse...

Obrigado, Aldora por tornar o meu dia, um dia melhor e mais feliz.