segunda-feira, 5 de maio de 2014



Sonhos de prata e ouro





Salpico de prata e ouro o nosso amor

Para o tornar humano.
A prata dá-lhe a beleza da simplicidade
e o valor da moderação.
O ouro, a exaltação das coisas raras,
a grandeza do exuberante
e a riqueza da irradiação plena
de mil sois celestes.


Pinto de prata e ouro os meus sonhos,
os nossos sonhos,
como o poeta embala a poesia
como o pintor acaricia a tela vazia,
em tons de amor e dor


E, um dia, quando este amor,
(sonhado e vivido) 
morrer, porque partimos (eu e tu)
na preciosidade 
do incontornável sonho cumprido,
possa, 
na memória dos que connosco privaram,
brilhar ainda 
em ouro e prata
o sonho deste amor,pintado e sonhado 
na tela da vida.

2014.04.30

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Mundo da Lua


Levantou-se cedo naquele dia. Pela ampla janela do quarto entrou a aurora, sorridente, anunciando a vinda do rei Sol. Como era bela a natureza! Tal entusiasmo levou-o a sair para o pequeno terraço que circundava a casa, decisão premiada com a visão da fugidia e bela Lua, brilhante e calma, ainda presente, talvez na expectativa de se cruzar com o tão amado astro, luminoso e intenso. O céu estava limpo, sem nuvens, aquelas que por não lhe pertencerem, podiam ser ausentes. Tomou o café ali mesmo, saboreando-lhe o aroma e toda a harmonia envolvente. Há cafés e cafés!
Tudo o que tem um início, tem um fim. Assim, como por magia, uma espécie de movimento do maior para o menor, trá-lo a outra faceta do tempo presente. É hora! Hora de recolher. Espanta-se com tal expressão. Por que razão se sentia a recolher? Aquela manhã estava estranha, muito estranha…
O automóvel espera-o à porta de casa, como um fiel servidor, discreto e dispendioso. Com a ignição vem a primeira novidade do dia: alguém matou alguém. O coração queixa-se, discreto, como um fiel, e para sempre, servidor. A hora marca o que tem de ser feito, é preciso continuar. O rádio anuncia, uma após outra, notícias de medos, roturas, embustes e trânsitos infernais, como é normal. Tudo decorre como o esperado, excepto a visão duma janela, que ficou para trás mas ali continua, teimosa, mostrando o sentido inverso. Ali, é preciso continuar, como é normal.
Olha pelo vidro do carro e lá está a Lua, ainda, provocadora. Olha-a, fixa-a. Em contornos esbatidos parece querer fundir-se com o céu. De repente uma qualquer sintonia estabelece-se. É no centro do peito que a sente. Vê-se a estender a mão à Lua, que se faz tão perto. Como será olhar a terra lá de cima? Sim, já viu fotografias da NASA, com excelente resolução mas nunca como agora viu a terra.
É lá de cima que olha a sua casa no universo, um pequeno ponto, azul, brilhante. Sente-se pequeno demais face a tanta beleza e serenidade. O corpo está mais leve, como se a fronteira que sempre acreditou existir entre corpo e o exterior se quebrasse e uma outra noção de liberdade, de interligação com tudo, se estabelecesse. Cores e formas mostram-se como são e tudo parece estar no lugar certo, tudo faz sentido.
Apetece-lhe abraçar a terra, acolhe-la no seu regaço e protege-la. No mesmo instante sente que o faz, que pode, e quer, acolher nos braços aquela mãe, agora num horizonte feito de não distância. O tamanho de que é feito transforma-se. É, sem tamanho.
Com a Terra em si uma dimensão desconhecida descobre-se. Reconhece um estado de não separação: Ele, a Terra, o Espaço, a Lua, o Universo, não são mais “Ele, a Terra, o Espaço, a Lua, o Universo”. É na não nomeação que reconhece o fluxo de harmonia sem tempo nem espaço, sem isto ou aquilo, seu eu e outro. A luz veste tudo o que inter-é.
De repente a Terra mostra-se de novo. Tinha voltado à separação. Ainda assim o abraço mantinha-se. A protecção que lhe dedicava era ainda insuficiente. Aconchegou-a mais e mais, a si, como que a revisitar o estado de não separação sabido. Olhou bem para aquele planeta tão frágil. Olhou-o nos olhos. O coração queixou-se, quando uma lágrima rolou por uma encosta. Atrás dela muitas outras lhe seguiram os passos. A Terra chorava.
O coração queixa-se. Ali, no mundo da Lua, volta-se também para ele. Sente-lhe o batimento alterado. Não é só a Terra que chora. Aquele órgão vital, sensível, associa-se ao que de repente os seus olhos podem observar. A Terra chora seus filhos perdidos, as entranhas rasgadas, estripadas, os céus poluídos.
Ali, de mão dada com a Lua, pode ver todo o sofrimento de um planeta que luta por sobreviver.
Vê homens de coração de oiro, empedernido por ele, crianças famintas de alimentos vários, guerras cujas armas matam esperanças. Vê um corre-corre, desenfreado e a inanição sem volta. Vê montanhas e florestas estropiadas, mares e rios cobertos de sangue, gentes fugindo com nada nas mãos e terror no coração. Vê belas obras espelhadas elevando ao céu as altas finanças, pastas de couro tingidas de morte, mentiras, traições, egoísmo extremo. Vê a Terra jurada de uma finitude precoce. Vê a separação fatal entre os reinos dos homens dos animais e dos vegetais. Corre-se para ter mais, muito e rapidamente. Morre-se por não se chegar a nada.
Subitamente, sente-se abraçado pelo Lua. Um raio de sol atinge a Terra alumiando-a. O coração alegra-se e uma vontade de fazer diferente invade-o.
O som de uma buzina e a voz alterada da mulher chamam-lhe atenção. Tinha deixado cair o vermelho sem se mover. Sorriu. O sol brilhava, o dia estava lindo. Finalmente arrancou. A mulher, a seu lado sentada, comenta perplexa que estava a tomar o caminho errado. Era já tarde e tinham que abrir a empresa. Olhou-a sorrindo dizendo-lhe que naquele dia não, não abriria a empresa. Apetecia-lhe parar, ir até ao mar. Olhar a natureza, contempla-la.
Almoçaram os dois à beira-mar. A companheira de vida quer saber o que se passa com ele, naquele dia, pois “parecia não estar cá”. Por onde andava?!
Sorriu-lhe e respondeu “ no mundo da lua!”.
Aldora Amaral

2013.11.30

domingo, 16 de fevereiro de 2014





É preciso cuidar do amor


É preciso cuidar do amor
Com muita perícia,
e alguma malícia.
Tratá-lo com pinças,
com luvas, caricias
e muita emoção.
Enxugar uma lágrima
em véu de cambraia,
rasgar um sorriso,
no sorriso amado.
Mimar o bastante
o amigo, amante,
em abraços doces
beijos escaldantes
noites mal dormidas
manhãs aquecidas
em corpos suados.
Do amor fazer
rios de prazer
sóis anunciados.
E quando a penumbra
ensombra o amor
descobrindo a dor
no par desarmado,
flores e doçura
abraços, ternura
adubam a terra
onde o amor espera
por ser relembrado.
No jogo do amor, a vida
se faz colorida.
Cumpre-se o desejo
de feliz se ser.
Na alegria, ou na dor,
é preciso cuidar do amor.

2014.02.12


Celebração

A cada ano que passa celebra-se o amor
Aquele amor que todos procuram
E raramente encontram.
O amor que dá, porque amar é isso
Que se sustenta a si próprio,
Que chora as lágrimas amadas,
Que ri os risos rasgados,
Ou os envergonhados.
Que está presente
No corpo e na mente.
Que sabe calar, se tal ajudar
Na hora de amar.
Um amor assim, não vira ruim.
Um amor assim, jamais se transforma
Sempre a si retorna para se alargar,
Desenha o amar em rostos plurais,
Transcende a casinha, o lar, a madrinha
O pai ou a mãe.
Amando o que vem, dá-se sem desdém
Sem medos, suspeitas, tramas, expectativas.
É amor sem dono, sem rei, nem patrono
Salpica sorrisos, Ilumina faces
Escreve Liberdade nos livros em branco
Neles registando tudo o que é amar.
Um amor assim explode no peito
Encarna o desejo de nada querer
Vive sem julgar e sem separar.
Este Amor, Maior,
Em todos reconhece
A ambição de feliz ser,
E a inquietação de não saber,
Como fazer
Para o cumprir.

2014.02.12






Identidades


Quem sou, quem não sou, nem eu sei!
Se o soubesse não era eu.
E é por não o ser, por o não saber
Que posso, tudo e nada ser.
Posso ser viva, morrendo.
Posso gritar de alegria, menina.
Posso aconchegar-te no colo
Limpar as tuas lágrimas
Guardar os teus segredos, amiga.
Posso sorrir ao espelho, vaidosa.
Andar ondulante, feminina e segura,
Tropeçar e cair na amargura
Rasgar corações em prantos
Entregar-me inteira, moçoila trigueira
Em abraços luxuriantes de amantes.
Ser filha, irmã e mãe e tudo fazer bem.
Posso ser a ovelha negra da família
Escrava do trabalho, vedeta, executiva, rainha.
Posso ser tudo isso e muito mais
Na identidade dos que buscam nada ser
De um ter hoje e amanhã não ter,
Nessa liberdade de vazio que em mim confio
Sei que nas muitas que sou
Está a identidade do efémero
Roupagem de tudo o que existe
No exultar da alegria e no se quedar triste.
Em mim, em ti, em nós
Acompanhados ou sós
Brindemos àquilo que é.
Na beleza nascida da certeza
De que mais nada sou
Do que aquela que rompeu a vida
Em pedaços de si
E amando, os espalhou.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

        



Até ser Primavera

Na primavera da vida todos os sonhos são possíveis. O ano, este bissexto, detestava particularmente esta apreciação. Por que carga de água (esta mais frequente no inverno e no verão dependendo da geografia do lugar), teria a primavera direitos que às outras estações eram negados? No mais fundo de si próprio, o ano bissexto, sentia-se como aquela mãe para quem, preferir um filho a outro era incompreensível. Cada um era o que era, dava e tomava de si diferentes emoções e sensações, mas a todos queria com a mesma intensidade. E sonhos, sonham-se em todas as estações ou melhor, sonhar é brincar com a vida que é um assunto muito sério.


Assim, o ano bissexto decidiu convocar todas as estações para refletirem sobre o problema e juntos encontrarem forma de mostrarem aos humanos que as estações do ano não são responsáveis pelos seus sonhos ou ausência deles.
Nesse dia a confusão instalou-se. O inverno foi o primeiro a chegar, era a sua estação. O dia acordou gelado. Todos se cobriam de agasalhos, mas de repente foi preciso tirar os gorros e as luvas pois o sol despontou suave e luminoso. Sempre pontual, a primavera que chegava sob o olhar incrédulo, dos que passavam por parques e jardins da cidade, perante o desabrochar das flores ou o seu crescimento a um ritmo nunca visto. A natureza parecia estar louca.
Ainda mal se tinham recomposto daquela súbita manifestação primaveril, em pleno inverno, já o verão se mostrava no seu esplendor decidido a chegar a horas à reunião. Flores murcharam de sede e as esplanadas encheram-se de gente e de roupagens despidas, ali mesmo, e penduradas em cadeiras. Até as praias viram as suas areias repletas de banhistas, desprevenidos, deixando as botas à beira mar e mergulhando os pés no oceano.
Os jornais não falavam de outra coisa. O dia caminhava pelas estações do ano deixando perplexos os homens e as mulheres, as crianças, os animais e os vegetais. A vida confundia-se ao ritmo da chegada das estações à reunião urgente.
Ao longe o outono anuncia-se e as folhas caem. Ventos fustigam a cidade e os habitantes recolhem as roupas, já temerosos do que o dia ainda lhes poderia reservar. Alguns diziam que um tempo assim não era bom sinal, outros lembravam que o tempo apenas manifestava o desprezo que a humanidade mostrava ter pelo planeta. Ninguém se entendia.
Finalmente as quatro estações estavam reunidas na casa do inverno que espalhou por todo o lado alguns flocos de neve como que agradecendo a presença de todos, na tradição de bem receber. Na rua tudo voltou ao normal. As gentes finalmente sentiam-se protegidas pela normalidade. Afinal estávamos em janeiro.
O bissexto abriu a sessão, feliz por ver os filhos reunidos. Primavera alega nunca ter influenciado os humanos na atribuição, a si, do sonhar da vida mas não se admirava de tal pois as suas manhãs, luminosas e calmas, e a harmonia das suas temperaturas chamavam à melancolia e ao sonho. Afinal ela anunciava o fogo do verão. O fogo é tumultuoso, chama à preguiça, pelo muito que desgasta. O outono talvez seja demasiado cinzento, para os sonhos desejados e o inverno, esse nem se fala, quem é que pensa em sonhar com chapéus-de-chuva a voar e poças de água a cada passo?
A discussão parecia não ter fim mas o ano bissexto, mais maduro, chamou à razão os seus filhos querendo ouvir o que cada um tinha para dizer. Assim, o verão, suado, mostrou o seu lado brilhante e o conforto das suas noites de ventos mornos e pares de namorados à beira-mar, olhando a lua. Assim se sonha no verão.
O outono lembrou a beleza das folhas caídas, pintando as terras, as estradas, afagando as bases das árvores, aquecendo-as em camas coloridas, verde limão e laranja tijolo, chamando ao recolhimento e ao sonho de uma natureza que humildemente se despoja, sabendo que desse despojamento nascerá a vida, renovada. Assim se sonha no outono.
Já o inverno olha-se e recorda que consigo, à noite, as lareiras ardem em alentos que confortam. As bebidas quentes e as comidas fortes juntam as famílias, que se resguardam. Consigo, belos são os campos repletos de neve e os farrapos caindo das árvores. Tudo se cobre, sob um manto branco de candura,  e nas montanhas os homens brincam como meninos. Assim se sonha no inverno.
Fez-se silêncio. Afinal o sonho não era apanágio da primavera. Há sempre razões para sonhar, se desperto se está. 
Bissextos e os filhos resolveram então tomar uma atitude. Era preciso colocar o sonho no lugar que lhe pertencia, o de não ter um lugar em particular. Chamaram todas as forças da natureza. Falaram com o deus sol e a deusa lua e todos os deuses e deusas do firmamento. Pediram-lhes que se unissem para juntos mostrarem aos humanos que a primavera da vida não tinha época, que a vida era indivisível, inseparável da morte, que todas as estações da vida são parte dela e que o homem sonha porque é homem.
Todos os deuses se uniram. Dali até à primavera, a natureza, nas suas mais variadas formas, enviou mensagens subtis a todos os homens e mulheres que davam como perdida a primavera da vida.
Nesse ano bissexto, foram muitos os que realizaram sonhos esquecidos e a primavera sorriu em pleno inverno.

2014.01.20
Aldora Amaral

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Poetas que sou


Deixo cair as palavras sobre mim
As tuas, agora minhas.
Visto-me delas
Sorvo-as,
Como seiva milagrosa.
Como sabias que te esperava?
Que te necessitava?
Que era este o momento de te ler,
De te sentir
De te fazer meu?

Poetas que sou,
Poetas da minha vida,
Sem vós nada seria.
Convosco rio e choro
Cresço e namoro
E tenho vontade de ir mais além
Ou de ficar aqui.
De ser forte e fraco,
De descobrir o mundo,
E num grito profundo
Descobrir-me a mim.

E quando a vossa poesia me faltar
Serei mais pobre
Não porque parti,
Mas porque vos deixei.
Perante o sagrado
Prometo voltar
Para ser de novo
Arauto de um povo
Que ao mundo doou
Poetas que sou
Sem nunca o ter sido.


Aldora Amaral
2013.12.10