De certa forma todos somos sonâmbulos. Se não o somos, diagnosticados, somo-lo embebidos numa massa espessa, que nos veste de ignorância. Sabemos tanto e tão pouco. Pobres sonâmbulos…
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Identidades
Quem sou, quem não sou, nem eu sei!
Se o soubesse não era eu.
E é por não o ser, por o não saber
Que posso, tudo e nada ser.
Posso ser viva, morrendo.
Posso gritar de alegria, menina.
Posso aconchegar-te no colo
Limpar as tuas lágrimas
Guardar os teus segredos, amiga.
Posso sorrir ao espelho, vaidosa.
Andar ondulante, feminina e segura,
Tropeçar e cair na amargura
Rasgar corações em prantos
Entregar-me inteira, moçoila trigueira
Em abraços luxuriantes de amantes.
Ser filha, irmã e mãe e tudo fazer bem.
Posso ser a ovelha negra da família
Escrava do trabalho, vedeta, executiva, rainha.
Posso ser tudo isso e muito mais
Na identidade dos que buscam nada ser
De um ter hoje e amanhã não ter,
Nessa liberdade de vazio que em mim confio
Sei que nas muitas que sou
Está a identidade do efémero
Roupagem de tudo o que existe
No exultar da alegria e no se quedar triste.
Em mim, em ti, em nós
Acompanhados ou sós
Brindemos àquilo que é.
Na beleza nascida da certeza
De que mais nada sou
Do que aquela que rompeu a vida
Em pedaços de si
E amando, os espalhou.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Até ser Primavera
Na
primavera da vida todos os sonhos são possíveis. O ano, este bissexto,
detestava particularmente esta apreciação. Por que carga de água (esta mais
frequente no inverno e no verão dependendo da geografia do lugar), teria a
primavera direitos que às outras estações eram negados? No mais fundo de si
próprio, o ano bissexto, sentia-se como aquela mãe para quem, preferir um filho
a outro era incompreensível. Cada um era o que era, dava e tomava de si
diferentes emoções e sensações, mas a todos queria com a mesma intensidade. E
sonhos, sonham-se em todas as estações ou melhor, sonhar é brincar com a vida
que é um assunto muito sério.
Assim,
o ano bissexto decidiu convocar todas as estações para refletirem sobre o
problema e juntos encontrarem forma de mostrarem aos humanos que as estações do
ano não são responsáveis pelos seus sonhos ou ausência deles.
Nesse
dia a confusão instalou-se. O inverno foi o primeiro a chegar, era a sua
estação. O dia acordou gelado. Todos se cobriam de agasalhos, mas de repente
foi preciso tirar os gorros e as luvas pois o sol despontou suave e luminoso. Sempre
pontual, a primavera que chegava sob o olhar incrédulo, dos que passavam por
parques e jardins da cidade, perante o desabrochar das flores ou o seu crescimento
a um ritmo nunca visto. A natureza parecia estar louca.
Ainda
mal se tinham recomposto daquela súbita manifestação primaveril, em pleno
inverno, já o verão se mostrava no seu esplendor decidido a chegar a horas à
reunião. Flores murcharam de sede e as esplanadas encheram-se de gente e de
roupagens despidas, ali mesmo, e penduradas em cadeiras. Até as praias viram as
suas areias repletas de banhistas, desprevenidos, deixando as botas à beira mar
e mergulhando os pés no oceano.
Os
jornais não falavam de outra coisa. O dia caminhava pelas estações do ano
deixando perplexos os homens e as mulheres, as crianças, os animais e os
vegetais. A vida confundia-se ao ritmo da chegada das estações à reunião
urgente.
Ao
longe o outono anuncia-se e as folhas caem. Ventos fustigam a cidade e os
habitantes recolhem as roupas, já temerosos do que o dia ainda lhes poderia
reservar. Alguns diziam que um tempo assim não era bom sinal, outros lembravam
que o tempo apenas manifestava o desprezo que a humanidade mostrava ter pelo
planeta. Ninguém se entendia.
Finalmente
as quatro estações estavam reunidas na casa do inverno que espalhou por todo o
lado alguns flocos de neve como que agradecendo a presença de todos, na
tradição de bem receber. Na rua tudo voltou ao normal. As gentes finalmente
sentiam-se protegidas pela normalidade. Afinal estávamos em janeiro.
O
bissexto abriu a sessão, feliz por ver os filhos reunidos. Primavera alega
nunca ter influenciado os humanos na atribuição, a si, do sonhar da vida mas
não se admirava de tal pois as suas manhãs, luminosas e calmas, e a harmonia
das suas temperaturas chamavam à melancolia e ao sonho. Afinal ela anunciava o
fogo do verão. O fogo é tumultuoso, chama à preguiça, pelo muito que desgasta.
O outono talvez seja demasiado cinzento, para os sonhos desejados e o inverno,
esse nem se fala, quem é que pensa em sonhar com chapéus-de-chuva a voar e
poças de água a cada passo?
A
discussão parecia não ter fim mas o ano bissexto, mais maduro, chamou à razão
os seus filhos querendo ouvir o que cada um tinha para dizer. Assim, o verão, suado,
mostrou o seu lado brilhante e o conforto das suas noites de ventos mornos e
pares de namorados à beira-mar, olhando a lua. Assim se sonha no verão.
O
outono lembrou a beleza das folhas caídas, pintando as terras, as estradas,
afagando as bases das árvores, aquecendo-as em camas coloridas, verde limão e
laranja tijolo, chamando ao recolhimento e ao sonho de uma natureza que
humildemente se despoja, sabendo que desse despojamento nascerá a vida,
renovada. Assim se sonha no outono.
Já o
inverno olha-se e recorda que consigo, à noite, as lareiras ardem em alentos
que confortam. As bebidas quentes e as comidas fortes juntam as famílias, que
se resguardam. Consigo, belos são os campos repletos de neve e os farrapos
caindo das árvores. Tudo se cobre, sob um manto branco de candura, e nas
montanhas os homens brincam como meninos. Assim se sonha no inverno.
Fez-se
silêncio. Afinal o sonho não era apanágio da primavera. Há sempre razões para
sonhar, se desperto se está.
Bissextos
e os filhos resolveram então tomar uma atitude. Era preciso colocar o sonho no
lugar que lhe pertencia, o de não ter um lugar em particular. Chamaram todas as
forças da natureza. Falaram com o deus sol e a deusa lua e todos os deuses e
deusas do firmamento. Pediram-lhes que se unissem para juntos mostrarem aos
humanos que a primavera da vida não tinha época, que a vida era indivisível,
inseparável da morte, que todas as estações da vida são parte dela e que o
homem sonha porque é homem.
Todos
os deuses se uniram. Dali até à primavera, a natureza, nas suas mais variadas formas,
enviou mensagens subtis a todos os homens e mulheres que davam como perdida a
primavera da vida.
Nesse
ano bissexto, foram muitos os que realizaram sonhos esquecidos e a primavera sorriu
em pleno inverno.
2014.01.20
Aldora
Amaral
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Poetas que sou
Deixo cair as palavras sobre mim
As tuas, agora minhas.
Visto-me delas
Sorvo-as,
Como seiva milagrosa.
Como sabias que te esperava?
Que te necessitava?
Que era este o momento de te ler,
De te sentir
De te fazer meu?
Poetas que sou,
Poetas da minha vida,
Sem vós nada seria.
Convosco rio e choro
Cresço e namoro
E tenho vontade de ir mais além
Ou de ficar aqui.
De ser forte e fraco,
De descobrir o mundo,
E num grito profundo
Descobrir-me a mim.
E quando a vossa poesia me faltar
Serei mais pobre
Não porque parti,
Mas porque vos deixei.
Perante o sagrado
Prometo voltar
Para ser de novo
Arauto de um povo
Que ao mundo doou
Poetas que sou
Sem nunca o ter sido.
Aldora Amaral
2013.12.10
domingo, 8 de dezembro de 2013
Lançamento do livro "Lugares e Palavras de Natal", Alenquer, Museu João Mário
Jesus desceu à Terra. Ninguém parecia dar por isso. Naquele 24 de dezembro, a azáfama reinava. A cidade desenhava contornos de formigueiro. Havia pressa, idas e vindas, toques, encontrões e pedidos de desculpa, embrulhos coloridos, luzes e decorações sofisticadas. A crise pairava sobre todas as cabeças, numas gerava fome, noutras, opulência.
O filho de Maria e José deambulava
pela cidade, contemplando, perplexo aquela dimensão da existência, a humana.
Para onde corriam? Porque não se olhavam?
De repente, um menino corre na sua
direção ignorando os gritos da mãe para que não se afastasse. Reconhecera
Jesus.
- Jesus, Jesus! Grita o rapaz.
Faz-se um silêncio que penetra todo o
ambiente como se de um efeito ondulatório se tratasse. Algo se propaga perante
o grito anunciador. Todos olham na direção sagrada.
- Jesus, continua o rapaz do alto da
sua inocência, minha mãe diz que só nasces amanhã, como podes estar aqui hoje?
Jesus olha o rapazinho e sorri-lhe.
Depois percorre com o olhar todos os que de si se acercam. Pega a mão do menino
e inicia uma caminhada por entre os que, ainda espantados e incrédulos, ali se
encontram. Pode ver rostos fartos, ricas roupagens, rostos famintos, rostos
envelhecidos e sofridos, uns marcados pela dor da doença, outros pelo medo,
pela solidão. Homens e mulheres tresmalhados, crianças velhas. Perante tudo
isto, com uma voz suave mas determinada e um sorriso aberto e doce diz:
- Meus queridos amigos, irmãos, não
existe tempo nem espaço no reino de Jesus e o reino de Jesus é o reino de todos
vós, de cada um de vós. Hoje apresento-me aqui para vos mostrar isso mesmo.
Nunca parto, nem regresso pois nunca me separei de vós, nem a vós me juntei.
Todos os que a isto acederem, todos os que isto sabem, não se espantam com esta
minha aparente visita antecipada. Aos outros digo que em mim confiem, que
afastem os medos e as dúvidas. Abram o vosso coração e observem a vossa mente.
Contemplem o que aí encontram, sem críticas, sem expectativas. Aceitem o que
observam. Façam tudo isso, movidos pela vontade de entrar neste reino, a que
chamam de Deus, e de percorrer o caminho da bondade, da honestidade, da
solidariedade para com todos os seres, pois a todos eles pertence este reino.
Considerem-nos, todos, sem exceção, como vossos filhos queridos. Observem os
seus sofrimentos e as suas alegrias e façam vossos esses seus estados de
espírito.
Jesus dirige-se, em seguida ao rosto
marcado pela doença e diz-lhe:
- A doença a faz parte da vida. Pensa
naqueles que sofrem mais do que tu, que têm doenças mais graves. Deseja que
todos os que sofrem de doenças possam melhorar.
O enfermo assim fez e como por milagre
o seu sofrimento por momentos desapareceu e então percebeu que pensar nos
outros diminuía o seu sofrimento.
O mesmo se passou com aquela por quem
a idade tinha passado demasiado depressa deixando marcas, às quais faltava
beleza. Contemplando a tristeza que lhe vinha desse facto soube que a raiva que
sentia no coração, cada vez que via uma jovem e bela rapariga, não se devia a
essa rapariga, mas sim à não-aceitação da vida. Aos poucos foi amenizando a
tristeza profunda que lhe habitava o coração e em breve até alguma graça
brotava de cada ruga que descobria.
Também aquela mãe que chorava a
partida do filho querido, ouvindo Jesus e observando essa dor pode mergulhar,
finalmente, na fé que sempre sentiu ter.
Jesus fala-lhe:
- Lembra-te que tudo o que tem um início tem
um fim. Assim a vida também termina dando lugar a outra existência no reino de Deus.
Embora com saudade a mulher despediu-se
de seu menino do coração, confortada por o Saber a caminho de um lugar mais
perto de Jesus. Assim e pela primeira vez soube o que era ter fé, sem medos,
sem dúvidas, a fé no reino de Deus.
E Jesus continuou:
- Quando verdadeiramente penetrarem
neste reino, o de Deus, tudo vos fará sentido. Mesmo o que hoje vos parece
injusto, inexplicável, será claro como os belos raios de sol. No reino de Deus
existe amor, compaixão, alegria, solidariedade e verdade. Tudo isto habita também
o coração de todos vós pois nada existe fora deste reino. No
dia em que percebeis isto sereis livres e felizes.
Jesus faz uma pausa. Havia lagrimas de
comoção, de emoção, em muitos rostos. O sorriso de Jesus torna-se ainda mais
doce. Todos se sentem tocados.
E Jesus prossegue:
- Recordem-se de não existo fora de
vós mas, como o esqueçais, ou não o reconheceis, finjo regressar todos os anos,
a 25 de Dezembro, uma data inventada por vós. Enquanto assim permanecerdes,
para vós renascerei, como renasço sempre que abris o coração para ver Jesus,
para sentir Jesus. É Natal, é tempo de todos o fazerem. Experimentem, abram o
coração, abram a mente e deixem o Natal florir em todos vós. Deitem fora todos
os medos, as invejas, as desconfianças, as raivas, as vinganças e deixem o amor
que existe no vosso coração, que sou eu, Jesus, manifestar-se. Sejam amor. O
Natal vive em todos vós, sois vós que o expulsais a cada acto, pensamento ou
palavra fora do reino de Deus.
Após estas palavras, Jesus olhou o
rapazinho que continuava agarrado à sua mão, sorriu-lhe, pegou-lhe ao colo e
aconchegou-o junto ao peito, segredando-lhe: Tu também és Jesus, o filho de
Deus.
No instante seguinte, tudo voltava ao
normal. Era como se nada se tivesse passado. A rua movimentada pareceria voltar
ao frenesim que anteriormente conhecera.
José, assim se chamava o menino,
jamais esqueceu aquele abraço e as palavras sussurradas ao ouvido. Diz-se até,
que naquele Natal, todos os que tinham visto Jesus, haviam de o viver como
nunca o haviam feito. Uma força, desconhecida, vinda do fundo de si teria
inundado os seus corações e mentes. Essa força levara-os a gestos mais
solidários, nesses e noutros natais mas também no tempo entre eles.
José não sabe por que razão Maria, sua
velha companheira de vida nunca acreditou muito nesta história. Ainda jovens,
ria-se quando José a invocava como se de uma traquinice se tratasse. Agora, no
final da existência terrena, mais perto dos céus, dizia-lhe amiúde que tal
repetição se devia ao passar do tempo. José não se importava. Maria era uma boa
mulher que sempre tinha tido o natal no coração. Via Jesus sem o saber.
No mundo das recordações, José vivia
ainda o aconchego do colo sagrado e isso bastava-lhe. Amanhã, quando Deus o
chamasse para junto de si, estava certo O reconheceria pois também ele era Jesus,
o filho de Deus.
Hoje é Natal e o 25 de dezembro ainda
vem longe.
Aldora
Amaral
2013.10.07
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
O Silêncio dos Corações
Naquele tempo um bater suave
e profundo expressava a paz sentida. Não, não vivia num qualquer céu, repleto
de harpas e vestes suaves cobrindo corpos ondulados e belos, de longos cabelos
loiros. Não, naquele tempo os corações falavam e os espaços tinham faces
conhecidas. O tempo era um aliado e companheiro. Os ritmos, outros.
Lembra-se das longas
conversas entre batimentos tão próximos. Falava-se de amor, da amizade, de
alegria mas também das tristezas, dos sofrimentos que cada um sentia ou sabia
habitar um outro. Sim, porque naquele tempo de proximidade, qualquer arritmia,
qualquer movimento era por todos sentido, tal era a empatia existente entre
esses órgãos fundamentais da vida física, símbolos poéticos de existências solteiras do que quer que seja ou mergulhadas em laivos de lucidez mais ou
menos constantes.
À medida que os ritmos
cardíacos se afastavam cresciam as distâncias entre corações. Com o tempo,
essas distâncias foram reforçadas por couraças cada vez mais sofisticadas. A
respiração viu-se obrigada a reforçar a intensidade das trocas que constituem a
sua natureza. O cansaço instalou-se.
Com a distância veio também
a solidão. Corações couraçados ocuparam o lugar dos outros: os desprevenidos,
os guerreiros de Shambala cujo
coração sangra de sensibilidade, os corações escancarados, aqueles que detêm a
paz, a liberdade, a alegria pura.
De couraça em couraça, vão
esquecendo quem são e as interligações que estabelecem. Vivem no silêncio das
mortes lentas, anunciadas. Falam línguas de fogo, com que queimam as
esperanças. Decidem sobre as vidas dos outros esquecendo de que matéria são
feitos. Tornam-se duros. Pulsam para si próprios. Vivem sob a capa opaca,
pesada, do medo. Adoecem precocemente, param subitamente.
Como em todos os tempos, há
os que resistem, numa teimosa mas firme certeza de que foram feitos para o
amor, para batimentos conjuntos. Recordam algures o tempo dos encontros entre
corações e sabem que esse tempo existe, ainda, perdido no universo. Procuram
outros e reconhecem-nos, se param para os escutar. Esses encontros, pródigos em
linguagens ricas e verdadeiras, tendem a mostrar a beleza de tudo o que existe.
O tempo, esse aliado e companheiro de corações que o entendem, que o aceitam,
que lhe dão a mão e com ele bailam a dança da vida, está bem presente e
mostra-lhes a disponibilidade dos grandes espaços. No encontro, entre corações a
alegria descobre-se, o amor despe-se de todas as escravidões. Soltam-se amarras
e a viagem rumo ao amor em liberdade tem início, sem nunca ter tido fim.
É no silêncio dos corações
que a morte habita, negra, hirta, gelada.
Hoje, neste tempo de mortes
lentas e anunciadas vou aquecer o meu coração, pintá-lo de branco e atirá-lo ao
alto, como um balão colorido que desperta a alegria nas crianças e o desejo,
esquecido, reprimido, de brincar, que nem os corações couraçados alguma vez
perderam. O tempo, esse aliado, chega então de mansinho e avaria os relógios. O
homem ri, rebola-se na relva junto do menino que persegue o cão. A lua aparece
no horizonte, empurrando o sol para o outro lado do planeta.
O mundo cala-se. Faz-se
silêncio. Dos corações renasce a luz das vozes inaudíveis.
2013.11.14
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
In(constante)
De in (constâncias) somos feitos
Como se de uma segunda pele se tratasse.
Mas é no campo do desejo
Que mais inconstantes nos mostramos.
Hoje queremos, o que ontem rejeitamos
Amanhã deitaremos fora, o que hoje amamos
Afinal quem somos, ou será que não somos?
Se fossemos, alguma constância haveria
Como há noite e dia.
Talvez não sejamos mais do que poeiras
Que o vento leva em todas as direções.
Arrastados por inconstantes emoções
Nos fazemos chuva, sol, neve
Inundando, queimando, gelando.
E quando o sorriso chega,
Na primavera de um desejo
Sorrateiro, subtil ou grosseiro,
Logo a inconstância,
Na linguagem que lhe assiste
Se instala e persiste
Em mostrar que de constante
Existe o bastante
Contido ao luar
Num raio de luz,
No lago a brilhar
2013.10.16
Interrogação
Em inconstâncias vivo
A vida a que chamo minha
Como chamo meu a um qualquer objecto.
E mesmo esses, os objectos
Que tenho deles?
E esse mim, onde
habita?
De que cor se pinta?
Tem forma, odor?
Ou será na dor,
Na vertiginosa dor que me revisita
A cada dissabor,
A cada revés,
A cada querer e não querer,
A cada in(constância)
Que espero constante,
Será aí,
Nesse espaço escorregadio
Pleno de vazio,
Que a realidade sem véus
Ausente de separações
Se manifestará na derradeira constância
Livre de qualquer manifestação
Livre.
Será?
2013.10.16
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